A China é um dos maiores países do globo, ocupando uma significativa mancha territorial na Ásia Oriental, e o mais populoso do mundo.  É uma república popular, assumidamente socialista, governada pelo Partido Comunista Chinês num sistema unipartidário e antiparlamentar. Desde 1949 – data em que Mao Tsé-Tung firmava com a então URSS o Tratado Sino-Soviético – que houve uma fusão da estrutura do Estado com a do Partido Comunista, numa clara aproximação ao modelo soviético do centralismo democrático. Não obstante a queda do Bloco de Leste e o fim da Guerra Fria, a China mantém imperturbavelmente nos dias de hoje o seu regime de cariz autoritário e totalitário.

Paradoxalmente, longe vão os tempos de uma economia planificada assente na estatização dos meios de produção, nomeadamente na colectivização dos campos e na nacionalização da indústria. Perante o insucesso das medidas proteccionistas, já com Deng Xioping ao leme, em 1979, a China decidiu aderir a uma economia mista. O país foi divido em duas zonas distintas: o interior, essencialmente rural, manteve-se preso uma economia planificada, alicerçada em planos de fomento, permitindo-se apenas a descolectivização de pequenas terras e indústrias, mantendo-se as demais sob o jugo da gestão do Estado; e o litoral, cuja abertura aos capitais e ao investimento foi quase total. Sob o lema de “um país, dois sistemas” a China cresceu e modernizou-se, tornando-se numa grande potência económica.

Os historiadores falam de um socialismo de mercado ou, mais recentemente, e como me parece mais correcto, de um capitalismo do Estado. Isto no sentido em que, apesar da abertura a uma economia de mercado, a China usa esse capitalismo para não só manter como também para fortalecer o seu regime político totalitário

Não fosse a falta de transparência das ditaduras, o “vírus chinês”, como lhe chama Donald Trump, teria sido travado na sua nascente, poupando as economias ocidentais a um grave período de recessão. Qualquer cura ou tratamento só poderá existir num mundo livre, no sentido em que a ciência só descobrirá uma vacina para uma coisa que existe. E, durante muito tempo, a China negou e ignorou a existência deste vírus.

Perante esta nova crise, e com a consciência de que com o crescimento económico chinês tem sustentando um Estado violador de muitas liberdades individuais, muitos grupos de pressão questionam-se se este não será a altura de os países europeus mudarem a sua relação comercial com a China, defendo uma autarcia económica europeia como forma de boicotar o regime de Pequim. A meu ver, uma opção tão isolacionista seria contraproducente no mundo global em que vivemos: estaríamos a falar de um aumento significativo dos custos de produção, que se reflectiria num aumento substancial do preço final dos produtos, sem esquecer todos os custos inerentes uma readaptação e formação de uma mão-de-obra tendencialmente terciária para uma mão-de-obra do sector secundário. Fechar o nosso mercado e as nossas fronteiras ao comércio externo não nos traria mais qualidade de vida. No limite definir-se-ia a saúde como uma reserva estratégica, mas isso, ainda que em menor escala do que se fôssemos alargar a todos as áreas económicas, traria os problemas já referidos, com a agravante de serem na área da saúde.

A solução, no meu entender, passa por a Europa exigir reciprocidade na sua relação com a China, criando regras que dificultem o acesso ao mercado europeu para Estados que violem justamente esse principio de reciprocidade. Da mesma forma que a Europa abre a sua economia a empresas chinesas, a China terá de se abrir ao mundo se quiser continuar na Europa. Esta será, portanto, a forma de mantermos as relações com a China para a importação dos produtos que a Europa não consegue produzir nas mesmas condições e de simultaneamente introduzirmos no mercado de Pequim os valores de liberdade individual e concorrencial que teriam impedido esta epidemia de proliferar num mundo globalizado.