A pandemia da COVID 19 poderá causar uma crise económica sem precedentes, podendo inclusivamente atingir níveis superiores aos de 2008.

Esta crise sentir-se-á quer do lado da procura quer do lado da oferta, e com uma imprevisibilidade quanto à duração do estado de emergência que dificulta quer as decisões empresariais quer a formulação de políticas. Do lado da procura, o principal problema prende-se com a queda do consumo por parte das famílias, motivada essencialmente por três razões: as famílias perderem rendimentos (seja rendimentos do trabalho seja empresariais); as famílias estão mais confinadas a casa e sem hipótese de consumir; e vários negócios encontram-se encerrados. Do lado da oferta, o encerramento de negócios, a redução de consumo e a mais que provável falta de matérias-primas provocam, no imediato, elevados problemas de liquidez às empresas que assim não conseguem fazer face aos compromissos assumidos, nomeadamente com os trabalhadores, e no curto prazo, poderão mesmo colocar em causa a viabilidade dessas mesmas empresas.

Dentro destes dois efeitos o que se poderá prolongar mais no tempo será o da procura. Do lado da oferta, e mesmo partindo do pressuposto que algumas empresas serão encerradas, a verdade é que a capacidade produtiva poderá voltar ao normal num relativo curto espaço de tempo. Do lado da procura, mesmo que o vírus não perdure muito no tempo, a verdade é que a confiança dos consumidores não será a mesma no período pós-covid (mesmo assumindo um período de revenge spending momentâneo). Assim com a queda do consumo, quer durante, quer após a covid, iremos ter uma menor produção e assim menos rendimento e mais desemprego. No caso particular português, esta situação agrava-se, dado que o turismo, um dos nossos principais setores económicos e que muito contribuiu positivamente para a nossa balança comercial, será um dos mais afetados com esta pandemia, já que a limitação de circulação de pessoas é uma realidade neste momento, e poderá prologar-se no tempo, sobretudo entre países, mesmo após sanada a enfermidade no nosso país.

A solução imediata do governo tem sido a criação de medidas que permitem diminuir as necessidades de liquidez das empresas no presente, contudo aumentando-as no futuro, ora possibilitando a obtenção de empréstimos, ora possibilitando o pagamento faseado de determinados custos, como impostos ou rendas. Esta medida apesar de positiva tem levantado dois tipos de problemas: um é que com a quebra do consumo que até poderá ser prolongada no tempo, a maior liquidez no presente pode ser um presente envenenado porque vai implicar uma menor no futuro, sem que as empresas consigam prever se terão capacidade para enfrenta-la; o outro prende-se com a demora na criação de legislação e dos instrumentos que permitem aceder aos apoios mencionados. Quanto maior a demora nesta criação, maior serão as dificuldades de liquidez das empresas. Na minha opinião, as medidas até à data têm sido insuficientes pelos motivos já apresentados, e será necessário, pensar na atribuição de subsídios a empresas (em particular, às PMEs), para que possam ter liquidez no presente sem a comprometer no futuro.

Sejam quais forem as medidas adotadas a verdade é que o Estado Português irá aumentar a despesa pública o que significa que haverá um acréscimo do défice. Este acréscimo do défice levará a um aumento da dívida que juntamente com a mais que provável quebra do produto levará a um aumento significativo da dívida relativa. O seu aumento poderá levar a uma maior desconfiança por parte dos investidores internacionais, reduzindo a concessão de crédito a Portugal, dado que ainda nos encontramos numa posição frágil relativamente à divida relativa, apesar desta ter vindo a ser reduzida. Este problema não é exclusivo de Portugal, sendo comum a vários países, sobretudo do Sul da Europa.

Esta será assim uma prova de fogo deste governo, que até à data, em muito beneficiou da conjuntura económica internacional altamente favorável e das bases que o governo anterior deixou. Até hoje, este governo não tem sido capaz de prever, nem executar com a celeridade necessária. Tal como referia, Víctor Hugo “saber exatamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo.”

Aguardemos o futuro!