Não é novidade para ninguém que nas últimas décadas temos assistido a uma forte queda da taxa de natalidade e a um envelhecimento da população, não só em Portugal como na Europa. Sendo Portugal a realidade que melhor conheço, para evitar possíveis erros de interpretação, cingir-me-ei a ela.

Olhemos, então, para o retrato demográfico de Portugal desde a década de 60 até aos dias de hoje. Se em 1960 a esperança média de vida de uma criança acabada de nascer seria de 64 anos, em 2017 os números eram de 81,6. O que significa que em 57 anos conseguimos prolongar a expectativa de vida de um recém-nascido em 27 anos. Algo esplêndido e notável se compararmos a mesma taxa com países de outros continentes.

Mas quais foram os fatores que nos levaram a alcançar esta marca? Mais cuidados médicos à nascença, mais educação alimentar, melhores práticas de vida, mais e melhor acompanhamento dos doentes, melhores condições de vida para os idosos – exemplos não faltam. O advento destes fatores? Crescimento económico.

O crescimento económico deu-nos isso. É devido ao crescimento económico que conseguimos estabelecer patamares mínimos de sobrevivência cada vez mais elevados. Mas também foi o crescimento económico que conduziu a profundas mudanças na nossa cultura e na nossa visão da sociedade, algo que não é, de todo, condenável – bem pelo contrário.

Estas mudanças são percetíveis através de números concretos, por exemplo, estes que mostram que em 1960 por cada 1000 mulheres em idade fértil havia 94,5% com filhos, e em 2017 passámos para apenas 37,2%. Estas mudanças drásticas na sociedade podem ter como explicação a transferência da população dos meios rurais para os meios urbanos; a emancipação da mulher; ou a forma como as famílias se interpretam a elas próprias.

Os filhos são cada vez mais um projeto de vida dos pais: algo que é considerado e muito ponderado, tornando-se cada vez mais uma realização pessoal do que alguma vez o foi. Se antes existiam famílias numerosas ora por descuido, ora por falta de métodos contracetivos, ou ainda por questões económicas, atualmente, um filho é o concretizar de um sonho individual. Nos dias de hoje, ninguém tem um filho para o ajudar na lavoura ou para o ajudar com os animais; tampouco para o enfiar no escritório das 9 às 5. E a nossa geração não quer deixar de ter filhos. Simplesmente, não tem capacidade de os ter.

O Estado sempre preocupado com a demografia por via das questões económicas que esta coloca, começou já há bastante tempo com medidas de apoio à natalidade, que tentam ajudar a equilibrar a balança. O que a economia comportamental nos diz é que, se os incentivos (apoios) não forem adequados o suficiente, a eficácia destes será tão elevada como atravessar o Atlântico numa jangada sãos e salvos – o mais provável é que não aconteça.

Então o foco essencial terá de se tornar outro. Porque temos de continuar a olhar para quem vai ter filhos. E quem vai ter filhos, neste momento, ainda está em casa dos pais, não se conseguindo estabelecer no mercado de trabalho de uma forma sustentável, sentindo a sua independência castrada desde logo. É verdade que os apoios à natalidade podem fazer a diferença, mas não é com 28,61€ mensais no 4º escalão de abono de família que alguém pode considerar ter um filho.

As rendas altas, a entrada tardia no mercado de trabalho e as baixas remunerações não facilitam o processo de emancipação. É nisto que temos de nos focar: na entrada da geração mais qualificada de sempre no mercado de trabalho português, de forma a ser capaz de se emancipar de uma forma sustentável. Neste ponto, existem diversas formas de pensamento e concretização, contudo torna-se indiscutível que as empresas criam postos de trabalho, e quanto mais empresas existirem mais competitividade irá haver, o que aumentará os salários, trazendo mais rendimento disponível, criando mais e melhores famílias. Só assim seremos capazes de realizar os nossos sonhos.

Onde há crescimento económico, há famílias a serem construídas. E quem disser o contrário, não percebe o funcionamento da sociedade.