Na presente crónica volto a um tema que abordei num texto que escrevi em Novembro do ano passado. Correndo o risco de ser repetitivo, a verdade é que a gravidade do tema me obriga a voltar a escrever sobre a circunstância de existir uma teia de interesses instalados de certas pessoas do PS no seio do Governo. Quando escrevi essa crónica existia um contexto que, hoje, se agravou.

Nós, cidadãos, devemos ter espírito crítico e não deixar que certos políticos nos ludibriem. Temos de ser cidadãos exigentes para com a classe política que nos governa, pois só assim uma sociedade avança e teremos, no futuro, melhores políticos e governantes. Em Novembro de 2018 escrevi acerca de diversos casos de relações familiares/amizade existentes no seio do Governo, designadamente dos Ministros Vieira da Silva, Eduardo Cabrita, Ana Paula Vitorino, Pedro Siza Vieira e Francisca Van Dunem e do famigerado caso de tachismo puro e duro da família de Carlos César, que é Presidente do PS.

A razão para voltar ao tema está relacionado com o facto de, recentemente, esta teia de interesses do PS se ter expandido e ter ganho novos intervenientes. Então vejamos os novos “artistas” políticos que surgiram: Mariana Vieira da Silva foi promovida a Ministra e agora convive com o seu pai na mesa do Conselho de Ministros; Pedro Nuno Santos subiu a Ministro e a sua mulher é chefe de gabinete de Duarte Cordeiro que substitui aquele na Secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares; por sua vez, Duarte Cordeiro é casado com Susana Ramos que tem funções de coordenadora do Fundo para a Inovação Social (organismo público para financiar projetos de inovação e empreendedorismo social); o mesmo Duarte Cordeiro nomeou o filho do deputado socialista Fernando Anastácio para seu adjunto; a mulher do ex. Secretário de Estado Marcos Perestrello é chefe de gabinete da Ministra da Cultura e o irmão é vogal da “Movijovem” por nomeação do Ministro do Trabalho. Por último, Maria Leitão Marques, ex. Ministra de António Costa, é agora candidata ao Parlamento Europeu que é casada com Vital Moreira que foi, em 2009, candidato pelo PS ao Parlamento Europeu.

Já terminou? Não. A imaginação socialista não tem limites e até os “históricos” do PS deixaram sementes. Manuel Alegre tem a sua filha Joana como deputada municipal; Mário Soares tem o filho João na vida política há muito tempo; António Almeida Santos tem uma filha deputada que, por curiosidade, foi eleita pelo círculo eleitoral da Guarda e não me recordo de algo que tenha feito, nos últimos tempos, pelo distrito. Havia mais relações, mas não irei cansar o leitor com mais cargos.

Eu posso estar muito enganado, mas pergunto o seguinte: será que na área política do PS não existem pessoas capazes e competentes para exercerem funções de Governo ou para estarem em cargos da Administração Pública? Não será um abuso esta teia de interesses que esteja concentrada num conjunto de pessoas e de famílias? Por que é que as grandes decisões governamentais estão concentradas num núcleo muito fechado de pessoas do PS? Como cidadão atento e interessado esta situação repugna-me e envergonha-me por saber que decisões governamentais podem ficar decididas num simples “almoço de família”. As reuniões ministeriais têm que ter um certo grau de formalismo, sob pena de serem menos sérias e facilitadoras do tipo “toma lá, dá cá”.

E essas decisões, neste ambiente promíscuo, serão as certas para o superior interesse dos portugueses? É para isso que os elegemos, para decidirem a bem de todos nós. Isto já não é uma questão de partidos, não se reprovam tais factos por se ser ou não do PS. Há com certeza muitos portugueses do PS que têm qualidades e competências para o exercício de cargos governamentais e estes provavelmente não apoiarão o comportamento do Primeiro-Ministro. Ou então questiono, será que outros não querem embarcar nesta governação e não aceitam os convites? Recentemente o programa de Ricardo Araújo Pereira, “Gente que não sabe estar”, ao abordar este tema, fez-me rir, mas ao mesmo tempo envergonhou-me.

A ética republicana, que em tempos foi tão aclamada pelo PS, ficou definitivamente na gaveta. Hoje vemos uma autêntica oligarquia a governar o País e esta realidade só me faz pensar que hoje Portugal tem políticos com atitudes de País de Terceiro Mundo. Neste momento, Portugal demonstra falta de cultura democrática e pouco apetência para privilegiar o mérito e a competência em detrimento do amiguismo partidário.

Os mais otimistas poderão dizer que essas pessoas não podem ser prejudicadas em razão das ligações familiares e até poderão ser muito competentes. É óbvio e não recuso essa interpretação dos factos. Contudo, não consigo ter esse otimismo e, muito menos, não consigo cair na ingenuidade de acreditar que essas pessoas são as mais bem preparadas para essas funções.

Não sei com que coragem António Costa ou Carlos César podem justificar estas nomeações e escolhas políticas. Tudo isto só pode levar a um progressivo afastamento dos cidadãos da política porque tudo isto desacredita a política e faz pensar (erradamente) que o mérito não existe em Política.

Oxalá, que nos próximos atos eleitorais o povo não feche olhos a isto e que se recorde do caos em que se encontra a saúde, o ensino, os transportes e a segurança, sem esquecer o aumento de diversos impostos e a falta de reformas políticas no País.