Antes de começar a desmistificar o tão falado milagre português começo por dizer que os seus louros têm que ser redistribuidos, ou melhor, realocados. O governo muito tem feito para se apoderar do suposto sucesso português na luta contra o COVID-19 no entanto, na minha opinião, o governo foi das  últimas entidades, com responsabilidade, a agir. Quando quisermos atribuir o “mérito” dos números portugueses, teremos que começar pelos empresários portugueses, em que a maioria deles tomou medidas de prevenção, mesmo antes de qualquer indicação do governo. Quando foi declarado estado de ermegência uma grande parte das empresas já tinha os colaboradores em teletrabalho (as funções que assim o permitiam) ou reduzido a capacidade de produção, de forma a permitir cumprir a distância de segurança entre postos de trabalho. Autarcas, com uma capacidade de agir extraodinária, como o caso de Ovar, em que o governo veio sempre a reboque da autarquia. Todos nos lembramos neste caso, da confusão que foi para declarar o estado de calamidade no concelho e o impacto que esta teve na prevenção do contágio. Foi, também, por iniciativa dos autarcas, que os primeiros hospitais de campanha começaram a ser construídos. Não posso deixar de referir a capacidade de reação da minha autarquia, Santa Maria da Feira, que foi das primeiras a disponibilizar quartos para os profissionais de saúde, minimizando assim o risco de contágio e aumentando o seu bem-estar. População Portuguesa, muitos cidadãos começaram a fazer isolamento social mesmo antes do estado de emergência, em seguimento do que se estava a passar em Itália e Espanha.

Um dos segredos do ilusionista, é fazer com que a audiência perca a atenção, no momento em que o truque está a ser realizado. Na minha opinião, o facto de Portugal ser considerado um milagre, como foi publicado por toda a comunicação social portuguesa e, até europeia, não passa de um truque de ilusionismo. Esta, foi a forma mais simpática que encontrei para classificar tais conclusões. Uma vez que gosto de sustentar as minhas opiniões em factos e dados, passo a explicar, como se consegue transformar um milagre num fracasso. Simples, basta mudar a dimensão e a medida da análise. O que quero dizer com isto? Durante todos estes dias, fomos bombardeados pela comunicação social com informação que, no mínimo, nos faziam retirar conclusões pouco corretas. Quando observavamos nas notícias, os números relativamente à propagação do coronavírus e nos eram mostrados os números dos restantes países Europeus estavamos a ver os dados dos dias em questão, e não, a comparar o mesmos períodos das diferentes fases de contágio, uma vez que a doença apareceu em momentos distintos nos vários países. Ou seja, quando o vírus chegou a Portugal, este já se encontrava em propagação na Europa há 38 dias. Quer isto dizer, que se compararmos os dados diários da doença, sem fazer um ajuste temporal, corremos o risco de estar a fazer uma análise de dois países com estados de evolução da doença bem distintos.

Gráfico 1 – Nº de Dias Após o 1º Caso Registado por País

Por outro lado, os números que nos são apresentados, são em valor absoluto, se pensarmos que Portugal é um país com um menor número de população quando comparado com os outros países que têm estado em análise durante esta epidemia, este indicador pode ajudar a camufular os números portugueses. Ou seja, para o mesmo nível de contágio, o nosso país irá sempre apresentar um número inferior do que os vizinhos Europeus, aliando a isto, o facto de ser dos últimos países a ser contagiado, o que faz com que os números apresentados façam parecer que Portugal é mesmo um milagre.

Gráfico 2 – Nº de Casos Acumulados por Data e País

Analisando o gráfico em cima podemos facilmente cair na tentação de concluir que Espanha, Itália, Alemanha, Reino Unido e França são os países Europeus que pior resultados têm tido na luta contra a COVID-19. Contudo, este gráfico, mostrado apenas desta forma (e este tem sido o gráfico que mais vezes nos tem sido apresentado pela comunicação social), pode-nos levar a conclusões erradas, porque, para além destes serem dos países com maior população da Europa, são também os países onde os primeiros casos do vírus foram detetados no Velho Continente, como podemos ver no primeiro gráfico apresentado.

Para tornar a análise mais honesta, proponho que a escala temporal, passe a ser o número de dias após o primeiro caso identificado no país e que o indicador seja a % da população infetada.

Gráfico 3 – % População infetada por Nº Dias após o 1º caso Detetado

Com esta pequena mudança, conseguimos verificar que Portugal, nos primeiros 54 dias após o primeiro caso detetado, está no top 3 dos países da Europa com maior % de população infetada. Quer isto dizer que, nestes 54 dias, era mais provável uma pessoa que vivia em Portugal contrair a doença do que, por exemplo, uma que vivia em Itália ou Espanha. Ou seja, no 54º dia após o primeiro caso detetado em Portugal, por cada 1000 habitantes, existiam 2,2 pessoas infetadas enquanto que, em Itália 1 e em Espanha cerca de 0,85.

Após esta análise, não posso claramente deixar de demonstrar o meu sentimento de insatisfação perante a atuação deste governo durante esta crise de saúde mundial. Isto é a mesma coisa que um aluno que vai a exame após um mês da restante turma, os colegas lhe informam sobre quais são as perguntas que vão sair no exame, e mesmo assim o aluno quando faz exame reprova. Ouvimos a Dr.ª Graça Freitas dizer que a doença não iria chegar a Portugal, e que se chegasse, não seria nada de especial. Antes 38 dias de a doença chegar a Portugal, tivemos o aviso em França. Não foi suficiente para nos prepararmos? Sobre os materiais de proteção individual para o SNS, ouvi o Sr.º Secretário de Estado da Saúde dizer que, o stock deste teria de ser gerido de forma equilibrada e que, não poderíamos aumentar os seus níveis de stock de forma arbritária. As informações que nos vinham chegando do resto do mundo, não seriam mais do que suficientes para alterarmos os nossos parâmetros de gestão de stock. Com isto, evitavamos as cenas tristes do nosso Primeiro-Ministro a tirar fotos no aeroporto Sá Carneiro, aquando da chegada dos benditos equipamentos da China, ou então, o papel que tirou do bolso, aquando de uma visita a um hospital de Lisboa onde dizia ter a lista de todo o material encomendado para o SNS naquela folha. Como se uma folha de papel fosse suficiente para conter as necessidades dos materiais de segurança para o SNS.

Durante este tempo de crise, em que somos governados por um governo claramente virado à esquerda, eu estava à espera de uma maior capacidade de implementação de medidas que defendessem a justiça social.

O acesso ao layoff tem uma carga borucrática tremenda, o que não é entrave para as grandes e médias empresas, uma vez que apresentam na sua estrutura pessoas capazes juridicamente, e que poderão com alguma facilidade reunir toda a documentação necessária para aceder ao layoff. No entanto, quando estamos a falar do pequeno empresário ou do pequeno comerciante este torna-se um grande entrave ao seu acesso.

Não é socialmente injusto aos olhos do PS, PCP e Bloco de Esquerda, uma pessoa que tenha um trabalho administrativo poder trabalhar remotamente e, uma pessoa que trabalha no chão de fábrica ter que ir trabalhar, sendo ela uma pessoa de risco ou não? Embora ache que isto é uma obrigação de todos os partidos, não deveriam os referidos partidos, que usam destes temas suas bandeiras eleitorais, ter defendido com um pouco mais de energia, estes trabalhadores vulneráveis que tiveram que continuar a trabalhar? O que me custa aceitar é a hipócrisia da esquerda portuguesa, que apregoa durante as campanhas eleitorais a defesa do proletariado face aos abusos capitalistas, e, quando tem oportunidade de realmente fazer alguma coisa, olhamos para eles e vemos que estão a assobiar para o lado como se nada se passasse. Acho que numa democracia, todos os partidos têm a sua importância e, em Portugal, neste tempo de crise, a esquerda claramente não cumpriu o seu papel.

Não posso deixar de fazer uma menção honrosa ao Tecido Empresarial Português, uma vez que olhando para as empresas que componhem o PSI 20, os malditos dos capitalistas, e fazendo uma análise simplista, vemos que as empresas que estão em layoff, são empresas que realmente viram a sua atividade reduzir-se substancialmente (Ibersol com a restauração encerrada; GALP Energia com o consumo de combustíveis a cair drasticamente; Sonae Capital com o encerramento dos Hóteis e Ginásios). Poderíamos discutir se estas empresas teriam possibilidade de absorver os custos desta crise, sem sobrecarregar o estado com a ativação do layoff neste tempo de crise. No entanto, não é o objetivo deste artigo e, o que importa ressalvar é a não ativação do layoff pela grande maioria das empresas portuguesas. Para além disto, vimos inúmeras empresas, associações, organismos públicos e muitas outras entidades, face à incapacidade do governo de dotar os nossos profissionais de saúde dos equipamentos necessários para lidarem com a pandemia, a unirem esforço, e a “fazer das tripas coração” para que nada faltasse aos nossos profissionais, que estavam na linha da frente. Mostrando, assim, a enorme solidariedade social do Português, que nos torna um povo ímpar.

Para terminar, dizer que, em homenagem à democracia, este artigo foi realizado com os dados disponibilizados pela União Europeia, no dia 25 de Abril de 2020.