O dia 1 de janeiro de 2021 ficou marcado como o dia em que se assinalou a entrada em vigor do acordo de parceria entre o Reino Unido e a União Europeia. Uma entrada em vigor provisória até que o conjunto dos Estados-Membros e o Parlamento Europeu aprovem o entendimento fechado antes do Natal e que foi aprovado pela Câmara dos Comuns.

Chegado ao fim o período de transição no último dia 31 de dezembro, o Reino Unido, que deixou de ser membro da União Europeia a 31 de janeiro de 2020, abandona o mercado único europeu e as relações bilaterais entre as partes passam a ser reguladas pelo novo acordo de parceria política económica.

Mas como é que tudo começou? O Brexit tem vários rostos. Um deles, curiosamente, foi de alguém que sempre se revelou pró-europeu: David Cameron. Como?

Recuemos ao início do século. O Partido Conservador está mergulhado num profundo marasmo, refém de um ultraconservadorismo ultrapassado, e com três derrotas nas últimas três eleições à Câmara dos Comuns (1997, 2001 e 2005) para o Partido Trabalhista.

David Cameron, com uma imagem de candidato jovem e moderado, querendo modernizar o partido, reposicionando-o mais ao centro do espectro político nacional, ganha as eleições internas. Da direita para o centro-direita. Eis o novo Partido Conservador.

O momento é de viragem. Um partido aburguesado, com fortes tendências nacionalistas e ultraconservadoras, dá lugar a um partido cosmopolita, moderno, progressista e liberal. Do entusiasmo das internas para o entusiasmo da legislativas. Foi nesta onda que Cameron conseguiu recuperar a imagem do partido junto da sociedade.

Foi sem surpresa que em 2010 o renovado Partido Conservador ganhou as eleições à Câmara dos Comuns e formou governo em coligação com os liberais-democratas.  O primeiro governo de coligação desde a última grande guerra. E o primeiro-ministro mais jovem nos últimos 200 anos.

Cameron, fiel ao discurso que o elegeu, foi um primeiro-ministro que procurou capturar algumas bandeiras até então associadas à esquerda: lutou pelo fim da resistência à integração total do Reino Unido na União Europeia, assumiu políticas ambientais defendidas pelo Partido Trabalhista, posicionou-se na defesa da manutenção do serviço nacional de saúde e integrou no seu governo mais mulheres e minorias étnicas. Em simultâneo reduziu a despesa pública com o Estado Social, diminuiu o peso do Governo nos cofres públicos e reduziu impostos às empresas e famílias na defesa do mercado livre e da iniciativa privada. Equilibrou as contas públicas, conseguiu estabilizar a economia e saiu da crise.

É nesse contexto que em 2015 David Cameron e o Partido Conservador partem para as urnas tendo no horizonte a reeleição. Um ano em que a Europa debate a crise de migração, com a emergência de populismos protecionistas e nacionalistas por todo o continente.

Com o tema dos refugiados a vir à tona, e o euroceticismo a crescer na classe média, o Partido Conservador de Cameron promete um referendo em caso de reeleição sobre a continuidade do Reino Unido. O objetivo era claro: Cameron pretendia silenciar em definitivo a franja mais crítica do europeísmo, base social para o crescimento acentuado do UKIP, convencido, primeiro, de que o seu parceiro de coligação não apoiaria a proposta de referendo e que, caso tal não se confirmasse, a manutenção do Reino Unido na União Europeia, apoiada pelo maior partido no parlamento, venceria nas urnas. Até porque um ano antes o sentimento europeísta revelou ter um papel fundamental para que os escoceses votassem contra independência da Escócia do Reino Unido.

O sucesso da governação dos últimos quatro anos beneficiou o maior partido do governo, ditando que em 2015 o Partido Conservador tivesse uma vitória por maioria absoluta. David Cameron encontrava-se, por isso, amarrado à sua proposta de referendo.

David Cameron, após a reeleição, e com a proposta de refendo em cima da mesa, enceta negociações com a União Europeia, conseguindo meritoriamente uma panóplia de concessões. Tais concessões permitiram a Cameron propagandear que a manutenção de uma relação privilegiada com a Europa seria muito interessante para o Reino Unido. Tais concessões, porém, não foram suficientes para convencer um eleitorado cada vez mais eurocético.

Foi, por isso, que em 2016 o Reino Unido votou em referendo pela saída da União Europeia. Tendo assumindo-se a favor da manutenção na Comunidade, David Cameron renunciou ao mandato nesse mesmo ano.

A política é um jogo de risco. E David Cameron arriscou tudo.