Longe vão os tempos – em especial no nosso país – de aguda discussão ideológica. Sendo certo que a história ainda não acabou, não é menos certo que determinados fenómenos globais provocaram no ambiente político uma certa homogeneização de pensamento.

Entram constantemente numa “lista prioritária” questões que, de forma geral, todos concordamos na sua relevância. Desde a necessidade de um Serviço Nacional de Saúde eficaz, à crescente proteção do consumidor nos mercados digitais, não esquecendo a inflamada questão da emergência climática global. Assim o é porque estabelecemos um consenso, um mínimo denominador de temas relevantes para o rumo do país ou, em sentido global, para a humanidade.

Os efeitos desempenhados por este particular aspeto do fenómeno da “globalização” em determinadas matérias – ou da sua discussão – provocam uma certa unidade de pensamento, mas retiram-nos individualidade.
Ora, parece caricatural que oportunidade e liberdade de expressão venham acompanhadas de indiferença em determinadas matérias. É nítida, por exemplo, a desconsideração de debate ideológico dos partidos clássicos, até certo ponto legítima. Mas não se venha dizer que esta corresponde a uma expressão de realpolitik (de destreza ou disfarce político), porque este fenómeno vem acompanhado de perdas nas urnas, falta de atratividade dos programas políticos e maçada generalizada. Esta é, parece-me, uma consequência do esvaziamento do espaço político. Isto é demais nítido quando nas últimas eleições legislativas foram eleitos para o Parlamento novas expressões políticas que vieram dar voz a vozes esquecidas, mesmo dentro do nosso partido.

Uma sociedade informada é uma sociedade que vota de acordo com determinado conteúdo eleitoral. Cabe por isso a todos os que fazem política se assumirem, “saírem do armário”. Cabe em particular ao PSD reclamar a liderança de um espaço que está a ser aproveitado para os mais diversos desvarios, que pode ter consequências más (o desvio do eleitor de centro-direita a soluções moderadas alheias, à cabeça, o Partido Socialista) e gravíssimas (a opção por partidos que baseiam a sua ação em parafernália rivanchista).

Isto não quer dizer, por um lado, que os partidos ditos clássicos estão absolutamente desvinculados das ideias nem, por outro, que devemos recorrer à constante repetição do nosso rótulo identitário (veja-se o que esta tática trouxe a um partido parceiro). Devemos, pelo contrário, assumirmo-nos, dizer ao que vamos sem complicações ou preconceitos; numa palavra, é dever do PSD assumir-se como líder do campo político que ocupa, isto é, do centro e da direita democrática portuguesa, e sim, aqui estão obviamente incluídas as suas vertentes social democratas, liberais, conservadoras e democratas-cristãs.

Não nos podemos dar ao luxo do purismo ideológico, mas também não podemos dizer o que não somos. O PSD sempre foi a grande casa do centro e direita democráticos em Portugal. Cabe a cada um de nós honrar essa posição; o contrário, uma suposta migração para outro lado, representa a transferência de votos para os nossos oponentes e a passagem de testemunho a intervenientes menos capazes.

Por isso, e no rescaldo das últimas eleições legislativas, surge a oportunidade para o PSD, mais do que nunca, mostrar que além do partido com melhor programa e medidas destinadas a melhorar o nível de vida dos portugueses é também um partido com confiança e capacidade de destronar a atual solução governativa de esquerda semi-unida.

Estou certo de que o tempo nos dará razão, como tantas vezes deu. E este é o tempo de o PSD mostrar a sua veia reformista, de ocupar o seu espaço natural e de se afirmar como a melhor solução governativa para Portugal. O resto é o vazio.