A pandemia mundial, provocada pelo mais recente Coronavírus, SARS-COV-2, que actualmente e à data de hoje já provocou mais de três milhões infectados no mundo, veio mudar o mesmo por completo e a forma como vamos viver o nosso dia-dia, pelo menos até existir uma cura ou uma vacina, de modo a que possamos viver a nossa vida com alguma segurança.

As consequências desta pandemia mundial já se começaram a fazer notar em Portugal, os níveis de desemprego aumentaram consideravelmente, estando já perto de 400.000 portugueses inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), e perto de um milhão de portugueses em regime de Lay-Off, o que implicou uma redução dramática na maior parte dos salários e consequentemente nas economias das famílias em Portugal.

A nível do ensino universitário, as universidades preparam-se para abrir as suas portas aos estudantes, algumas em regime presencial, outras não, mas adaptando-se a novos desafios de ensino à distância.

Para muitos estudantes, este regresso à universidade vai ser marcado por uma nuvem cinzenta que paira em cima de vários estudantes e várias famílias dada a conjuntura nacional que atravessamos.

Por um lado, o problema do pagamento atempado das propinas. Uma grande parte dos estudantes universitários já tinha dificuldades em pagar as propinas, por estas serem altas, dificuldade essa que agora aumentou drasticamente por duas ordens de razão: para os trabalhadores-estudantes, que estudam e trabalham para conseguirem fazer face ao pagamento das propinas, viram os seus trabalhos, que na grande maioria eram precários, mal pagos, ainda que em regime de part-time, ou meros «biscates», serem terminados, em função da actual pandemia e pela falta de trabalho, dado que a economia está parada e a grande maioria destes trabalhos provêm do sector da restauração ou de outros sectores que foram fortemente atacados. Desta forma, a grande maioria dos estudantes viu a sua fonte de rendimento desaparecer e vêm-se a braços com a batalha do pagamento atempado das próprias, sejam elas provenientes de universidades públicas ou privadas.

A segunda razão prende-se com o apoio das próprias famílias aos estudantes, que devido a terem também o seu budget familiar reduzido drasticamente, em virtude de estarem em regime de lay-off (que compreende ou a suspensão do contrato de trabalho, ou a redução do horário de trabalho), ou mesmo por despedimentos colectivos , não conseguem ajudar os seus filhos ou familiares, no suporte dessas despesas.

Por outro lado, o problema fica ainda mais preocupante e aterrorizador, quando falamos de estudantes deslocados, que vão muitos deles ver o seu futuro académico suspenso, nos próximos anos derivado a esta crise, que ainda agora se iniciou e já está a provocar enormes consequências dramáticas, para as famílias portuguesas.

Ainda há dias atrás conversava sobre este assunto, com uma amiga que vive no Algarve, estudante em Lisboa, que relatava a tarefa quase impossível que estes jovens têm, todos os anos, de arranjar quarto ou casa em Lisboa, a preços minimamente aceitáveis, o que por si já se torna numa tarefa praticamente impossível de concretizar, dado os preços inflacionados sobre os arrendamentos em Lisboa, ou nas grandes metrópoles. Grande parte do orçamento familiar era dirigido para poder concretizar o seu sonho e vir estudar para Lisboa, e grande parte desse orçamento era direccionado justamente para a sua habitação, dado que pagava à altura 450 euros por um quarto com casa de banho partilhada. Contava-me ainda, que por ser do Algarve, e viver uma zona que vive praticamente do turismo sazonal, conseguia amealhar alguma quantia, nas férias de Verão para ajudar a família a fazer face às suas despesas académicas. Os próprios pais, vivem, como muitos destas zonas, do turismo, trabalhando quer em hotéis, empresas de turismo, culturais etc., e que por força desta pandemia, viram os seus trabalhos encerrados e consequentemente viram o despedimento à porta. Não sabe, portanto como vai conseguir acabar os estudos, e continuar a pagar um quarto em Lisboa, pois ela própria, não consegue arranjar actualmente emprego.

Ora, os estudantes deslocados vão ser, a meu ver, os mais prejudicados pois o que até aqui parecia uma ideia, que muito embora custosa, ainda que fosse minimamente conciliável, para os estudantes e as suas famílias, nos dias de hoje passou a ser em larga escala, uma tarefa impossível. As famílias deixaram de ter um orçamento familiar, compatível com as despesas e com os seus compromissos que até aqui conseguiam assumir, embora com algum custo.

Consequentemente o sonho destes estudantes e das suas famílias, que até aqui se esforçaram por poder concretizar, vão ficar muitos deles, suspenso ad aeternum, até que haja novamente condições mínimas para poderem serem concretizados.

Ora, o Estado tem aqui um papel muito importante, não só no auxílio às famílias que estão neste momento, muitas delas a passar fome, e com dívidas crescentes, por não terem trabalho e rendimentos, mas também no que toca aos jovens estudantes, mais a mais, deslocados. Deveria o Estado criar um fundo de emergência, para permitir aos estudantes poderem pagar não só o resto destas propinas deste ano lectivo, mas também as rendas dos quartos arrendados. Consequentemente deveria ser também alargado os parâmetros e o número bolsas de estudo, através dos Serviços de Acção Social Escolar, a serem atribuídas a estudantes que estão com dificuldades actualmente, pois o grande problema que se impõe nesta medida é que para o cálculo de uma bolsa de estudo social, o momento de avaliação dos rendimentos do agregado família, reporta-se ao ano civil anterior, isto é, a 2019 e não à situação actual.

Como se pode perceber temos grandes desafios pela frente. Não podemos perder a esperança e temos de lutar todos, em conjunto, porque em conjunto, somos mais fortes!