É isso mesmo – talvez os portugueses sejam mesmo demasiado Europeístas.

Sei que pode parecer estranho, mas uma taxa de abstenção tão elevada em Portugal nas eleições europeias do último domingo pode levar-nos a concluir que os portugueses estão (demasiado) satisfeitos com o facto de pertencerem à União Europeia, de tal modo que os impede de equacionar um panorama em que a mesma não exista, tal como os benefícios a si associados.

Bem sabemos que o número de eleitores foi de quase mais um milhão face a 2014 – por causa do recenseamento automático -, mas seja como for, quase 70% de população abstencionista continua a ser uma vergonha. O recenseamento automático veio dar direito de voto a mais de um milhão de portugueses no estrangeiro, mas este foi exercido apenas por cerca de oito mil.

Pois bem, e quais terão sido as razões que justificaram o facto de os eleitores portugueses terem decidido não ir às urnas pronunciar-se sobre o futuro que querem para a União Europeia?

Na minha opinião, não há justificação satisfatória para a maioria deles. Ouvimos até à exaustão que estas eram das eleições para a União Europeia mais importantes de sempre, como se tal já não fosse um facto público e notório, depois de tanto se ter ouvido falar do referendo inglês para a saída da UE. Tanto se especulou, e especula, sobre quais teriam sido os resultados se a adesão tivesse sido maior do que foi naquele referendo e sobre quais seriam os resultados se os jovens ingleses – tendencialmente mais europeístas – tivesse votado em maior número (pois foi nesta faixa etária que se verificou uma maior abstenção).

Ora bem, na minha opinião, quem decidiu não ir votar fê-lo, na esmagadora maioria, porque não quis. E não servem de desculpas as comuns (e fáceis) máximas desresponsabilizadoras que culpam a “fama” dos partidos políticos, a falta de prestação de contas, a falta de competência ou de integridade dos agentes políticos, a falta de conhecimento ou qualquer outra de igual hipocrisia desinteressada. O direito de votar é um dever, como um bem, pessoal e intransmissível. A política não é uma instituição demoníaca em si mesma, política significa preocupação com as pessoas e se 70% dos portugueses estivesse preocupado o futuro estaria nas mãos dessa larga maioria.

Quem não foi votar (repito – na sua esmagadora maioria), não foi porque não quis. O voto antecipado esteve mais fácil. O recenseamento foi automático. Nós jovens dizemos ser a geração mais qualificada e preparada de sempre. Qualquer informação está hoje à distância de um “click”. Se há coisa a que temos acesso na quantidade (quase infindável) que queremos é informação – basta interesse e uma pitada de curiosidade para nos aguçar o gosto.

Mas ainda assim, de acordo com a sondagem publicada pelo Expresso no dia antes das eleições, apenas 55% dos portugueses sabia que a eleição do dia seguinte servia para eleger os membros do Parlamento Europeu e apenas 31% conseguia dizer o nome de um eurodeputado português.

Creio que a estamos a alimentar a falta de cultura associada à falta de interesse, pois se para aqueles que dizem que os portugueses não foram às urnas porque estão descontentes com os políticos, como é que justificam o facto de esses mesmos cidadãos não saberem, na sua maioria, que ato eleitoral está em causa ou nomear um eurodeputado português eleito há 5 anos? Já é possível discordar do que se desconhece? É o chamado “ser do contra”, com a significativa diferença que não falamos de crianças, mas de assuntos seríssimos.

Pois bem, sortudos dos que decidiram ir votar, já viram? Tiveram o poder de decidir por bem mais do que uma singela cruz que possam ter colocado no seu boletim de voto – pois imaginem a força que não tem o voto de um extremista-radical quando os moderados ficam em casa. Foi isso mesmo que aconteceu.

Até podia concluir que isto é mesmo assim, que é a democracia representativa e dizer apenas “agora, abstencionistas, não se queixem!”, mas estaria a ser muito ingénua, como se não soubesse que são estes os contestatários de primeira linha. Se pensarmos bem até encontramos um padrão entre o abstencionista e o contestatário de primeira linha – é o cidadão que nunca quer decidir, mas que tem sempre uma palavra a dizer sobre a decisão alheia. Quem não conhece um?

E poder-me-ão dizer que a abstenção é um fenómeno a acontecer um pouco por toda a Europa, mas a verdade é que Portugal está em contraciclo – e as justificações que ensaiei em cima não são apenas portuguesas. Ora seja-se: em França a participação subiu pelo menos 8%, no Reino Unido, que poderá estar de saída, o número de eleitores foi superior ao de há 5 anos, na Alemanha votaram mais 5% de eleitores, na Áustria, mesmo após um recente escândalo de corrupção, votaram mais 10%, na Dinamarca a afluência cresceu, em Malta aumentou bastante. Estarão os europeus todos satisfeitos, com exceção do pobre do português? Não creio!

Segundo o Eurobarómetro, mais de 69% dos portugueses discorda que o país tivesse futuro fora União Europeia e segundo os resultados do inquérito nacional levado a cabo pela JSD a jovens entre os 14 e os 30 anos, 93% dos jovens portugueses pensa que Portugal deve permanecer na União Europeia. Parece resultar claro destes dados que os portugueses gostam da UE, e talvez por isso mesmo, a vejam como algo seguro – tal como aconteceu com tantos ingleses que ficaram em casa no dia do referendo.

Portanto, concluo como comecei – os dados aqui elencados tendem a demonstrar que os portugueses são demasiado europeístas e, como tal, não estão preocupados (como não estão informados ou, sequer, descontentes com algo que não conhecem). Considero que grande parte da taxa de abstenção existente representa não uma contestação contra a Europa – pois contestação pressupõem informação – mas a falta de literacia política, e sobretudo europeia, da população portuguesa. A somar a este facto, apesar de os portugueses demostrarem gostar da UE e de não quererem sair desta União, dão-na como garantida. Talvez valha a pena recordar o provérbio popular português que nos diz que o “seguro morreu de velho”!